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terça-feira, 30 de abril de 2013

Inferno Verde



Durante a Era Áurea, as florestas de Aester já sofriam as depredações do progresso. Tudo que restara da Grande Floresta Este, que ia desde a distante Anatólia até à sombra dos montes Galeivianos foram alguns Hectares de bosques reais e pomares. A Floresta Obscura que encobria toda a Teudônia foi reduzida a um pequeno núcleo, que só era poupado porque ela era – e sempre foi – considerada amaldiçoada por monstros, fadas e elfos. Todas as grandes florestas foram severamente reduzidas, ao ponto de que grandes nações como Valesia, Astúria e Galei importavam ou extraiam sua madeira de outras partes do mundo. As florestas que restavam eram defendidas ferozmente pelas criaturas da floresta, principalmente elfos e gnomos, que barravam com todas as forças o desenfreado e destrutivo progresso humano que em nada tinha na consciência em poupar a natureza, como uma vez haviam tido.

Após a Guerra Final, muito do que restava da natureza foi destruído ou corrompido. Se não fosse a intervenção do corte Seelie da fadas, Aester seria hoje um deserto árido e inóspito, com apenas alguns focos de natureza corrupta e estagnada. De Elfhamme, os elfos trouxeram vastas quantidades de verde e magia para rapidamente curar e proliferar a natureza em Aester novamente. Os elfos vieram em massa para Aester, dispostos a transformá-la em algo mais semelhante a Elfhamme, sua terra natal. Quanto aos humanos, os elfos pretendem tomá-los como alunos do caminho correto a se trilhar, mas até que aprendam tudo, eles estão proibidos de gozar totalmente dos prazeres que a natureza tem a oferecer.

Muitos humanos se agarraram aos ensinamentos élficos com afinco, o resultado foi que hoje existem muitas comunidades mistas de humanos e elfos dentro das agora vastas florestas de Elfhamme, inclusive toda uma nação de humanos e meio-elfos surgiu sob a filosofia élfica. A verde nação de Corellion.

 Mas nem tudo foram flores, os vizinhos de Elfhamme se encontram invejosos dos elfos e daqueles que eles chamam de “amantes de elfos”. Toda aquele tesouro verde é essencial para a reconstrução da humanidade, no entanto os elfos se recusam a partilhar toda a vasta floresta, fazendo a humanidade tendo que se contentar com pedaços insuficientes de verde daquela vastidão, ou os bosques definhados e fedorentos existentes dentro de seus próprios territórios. Estas nações resistem ao máximo em absorver a influência élfica e buscam por meios de conseguirem expulsar os elfos da floresta que um dia foram de seus antepassados, e um dia, assim eles esperam, voltará a ser deles. Coro, Galei e Irine são as nações que mais se ressentem com os elfos desta maneira.

 Outro grande oponente de Elfhamme e sua filosofia é a poderosa nação humana de Al-Hazad. Estes invasores e colonos do oriente dominam quase metade de Aester. Muitas nações Asterianas jazem hoje subjulgadas sob o domínio de Al-Hazad, sendo Asturia, Cartália e Anatólia as principais. Al-Hazad tem muito interesse em possuir as vastas florestas mágicas de Elfhamme e arredores e em capturar os próprios elfos para comercializá-los como escravos, declarando assim guerra aos elfos para conquistar o que eles veem como seu por direito. Mas eles subestimaram os elfos e tiveram derrotas estrondosas uma atrás da outra. A campanha de conquista a Elfhamme foi um fracasso vergonhoso, mas antes que se tornasse um desastre para Al-Hazad eles negociaram uma paz com Elfhamme. Na realidade, Al-Hazad ainda se opõe a Elfhamme, agora de forma indireta. Grupos de aventureiros, mercenários e empreiteiros são contratados por Al-Hazad para trazer madeira de Elfhamme e escravos. Al-Hazad aprendeu da pior maneira que capturar um elfo para a escravidão podem ter consequências terríveis pelas mãos da família do capturado enfurecida, mas a mesma retaliação não ocorre quando os escravagistas capturam meio-elfos, e é por isso que esta raça virou alvo principal dos caçadores de cabeças contratados pelos Hazadi.



 Aester Noroeste é uma região de inúmeros contrastes. Luxuriantes e belas áreas verdes e um estilo de vida mágico e, aparentemente, pacífico se avizinham a terras pobres açoitadas por um grande cataclismo. Um local onde três culturas completamente distintas se chocam e tentam dominar umas a outras. Onde todos querem o grande prêmio verde e se acham no direito de reivindicá-la para si. Àqueles que ouvem falar de Aester Noroeste, dos elfos e florestas, chama o local de paraíso dentro do inferno. Mas apenas aqueles que vivem no assim chamado paraíso podem constatar é o fato de que este paraíso... ainda é o inferno. Um Inferno Verde.

 Facções do Inferno Verde 

Corte de Elfhamme: Organização mista de Gnomos, Fadas, Meio-Elfos e, principalemente, Elfos. A Corte de Elfhamme tem como objetivo espalhar a cultura élfica em Aester, regenerar as terras devastadas pela Tempestade e afirmar a supremacia elfica no continente.

Corte de Esmeraldas: Comunidade composta principalmente de gnomos e fadas. Reclusos e tímidos, esta organização é a mais antiga da região, e são peritos em defender seu território e se manter invisível ao fazê-lo.

Povos Independentes da Floresta Obscura: Comunidades independentes da floresta obscura que adotaram total ou parcialmente a filosofia élfica e, por isso, são tolerados pelos mesmos na grande floresta.

Nação do Povo de Corellion (NPC): Nação composta de comunidades semi-independentes de humanos que adotaram a filosofia élfica. Corellion é onde há a maior comunidade de meio-elfos de Aester – e de elfos fora de Elfhamme.

Ministério da Exploração de Irine: O ministério da Exploração de Irine mandam delegações de exploradores e extrativistas a Elfhamme para realizar “estudos e outras atividades extrativistas”, sendo na realidade pouco mais que mercenários extrativistas enviados pela República em busca de recursos.

Escravagistas Hazadi: Organização especializada na procura e captura de meio-elfos de Elfhamme para o mercado de escravos. Oriundos de vários locais, a maioria não admite que trabalham para Al-Hazad.

Extrativistas Hazadi: Organização que funciona da mesma forma e voracidade que os escravagistas, mas seu objetivo é a extração de madeira e instalação de campos madeireiros.

Bando Verde: Organização de Homens e mulheres que vivem da floresta. Decididos a serem o braço armado em defesa do Inferno Verde e de seus habitantes. O Bando verde não se diz associado com nenhuma outra organização. Defendendo todos seus habitantes contra elfos e humanos com força igual.

Al-Amaranth: Como parte da negociação de paz, um Califa Hazadi chamado Amaranth comprou uma estreita faixa de terra cultivável de Corellion, para isso, concordou em nunca formar um exército, nem ambicionar interesses fora da terra adquirida. Al-Amaranth existe como mais um marco vergonhoso para Al-Hazad, mas é um porto de neutralidade seguro no meio de tantas facções conflitantes na região.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Dama da Espada, Parte 3

O pequeno pátio não era tão grande quanto ela se lembrava e seus muitos caminhos não eram tantos assim quanto ela esperava, havia apenas um beco sem saída e uma ruela paralela ao que ela acabou de sair. Sabia que não podia retornar por onde vinha, pois no caminho até o pátio estavam cheios com seus perseguidores.
 No caminho até o pátio, a garota conseguiu derrubar dois perseguidores, mas o último samurai que ela derrubou soltou um forte grito de dor antes que ela pudesse nocautea-lo. O grito havia atraído um terceiro que se pôs determinado em direção ao som. Quando um samurai de bigode encerado e rosto bastante enrugado apareceu, a ronin o recebeu com um chute no peito que o desequilibrou e desferiu um forte golpe com seu boken no ombro do samurai fazendo-o se ajoelhar numa perna, mas ouviu outros se aproximando e não pode finalizá-lo, pondo a se movimentar para o pátio de kemari, onde achava que podia ter o benefício do terreno conhecido.

 Ao chegar ao pátio, constatou que estava cercada. O pátio era cercado por casas muito apertadas uma na outra, haviam uma outra rua paralela ao que ela veio, mas era bem provável que os samurais estivessem subindo por ela também, uma rua maior ao norte entre duas casa se provou apenas um beco sem saída com um cercado alto de madeira impedindo a passagem. Haviam pequenas frestas entre as casas, mas eram muito estreitas, talvez ela conseguisse se espremer através de uma delas, mas de nada valeria. Se ela não se encalhasse no percurso, ela demoraria tanto que os samurais poderiam conseguir cerca-la e simplesmente esperar ela aparecer numa das extremidades e espetá-la.Se ela já não estivesse cansada, ela tentaria muito bem pular aquele cercado, ou ira pela rua paralela, driblar o guarda e continuar subindo, mas ela estava exausta de fugir. A ronin aprendeu desde muito cedo a respeitar toda a vida e nunca desferir um golpe mortal, mas brevemente pensou se isso seria prudente quando se visse cercada por quatro samurais armados com lanças e espadas, mas pôs este pensamento de lado.

Não tendo mais para onde ir, decidiu fazer uma resistência no próprio pátio, pelo menos até criar uma nova oportunidade para continuar sua fuga, ela era apenas uma e eles eram pelo menos quatro, para vencer ela deveria enfrentar um de cada vez, embora a situação tenha ficado complicada, pois foi traída pela lembrança.

Ouviu um barulho vindo da ruela de onde havia vindo e se preparou. Se aproveitando de um armador de roupas se ocultou e esperou o samurai se aproximar, cedo o corpulento homem saia do corredor gritando.

-Sei que você está aí, apareça covarde!

A ronin respondeu com uma rasteira, nunca foi uma mulher alta, seu pequeno corpo ficava ainda menor se comparado aos grandes samurais Kôra, mas mesmo assim conseguiu prender os pés do samurai com sua perna esquerda e empurrar os joelhos dele com sua perna direita. O samurai já com equilíbrio comprometido por conta da pequena corrida que fez para alcançá-la nada pode fazer para impedir a queda, caindo de cara no chão. A mulher rapidamente rola por sobre o corpo do samurai e enterra o cotovelo em sua nuca, fazendo o samurai perder os sentidos.  Mal se levantou, ela notou que outro samurai corria em sua direção e ouviu outro subir pela rua paralela. Recuou para o centro do pátio e esperou.

O primeiro samurai apareceu, alto e magro para um Kora, usando uma grande lança e um Chapéu cônico de ferro. Fazia calor e dava para ver que ele suava por baixo da armadura, mas sorriu triunfante ao ver a fugitiva encurralada. Logo o outro apareceu, gordo e musculoso espada na mão e concentrado, apesar de estar bastante ofegante e empapado de suor pela subida. A ronin toma uma posição de duelo, arrastando sua perna direita para traz e inclinando-se sobre o corpo, sua mão direita repousava em cima do cabo de seu boken, a palma da mão aberta, como se oferecendo um presente. O samurai gordo se impressionou com aquela postura e recuou um passo, o outro apenas riu e avançou com sua lança. 

O Boken da ronin saiu num flash de seu obi, atingindo a lança de seu adversário com tanta força que a partiu. O segundo golpe caiu com força contra o jingasa de ferro do lanceiro, o deixando tonto e sem reação, mas não o derrubando. A ronin aproveitou a desorientação do primeiro atacante para se defender do ataque do segundo, aparou um forte golpe de katana com seu boken e logo notou que o grande homem tinha muito mais força que ela. Decidiu tentar cansa-lo um pouco se desviando de seus golpes e procurando confundi-lo, girando ao redor do grande homem. O homenzarrão não conseguiu acompanha-la e abriu a guarda, uma oportunidade que a ronin usou para ir por trás do guerreiro e lhe acertar na axila. O golpe fez o homem cambalear para a frente, com uma careta de dor. Mas neste ínterim o alto samurai já havia se recobrado e sacado sua própria lâmina, avançando para cima da ronin, ela mau teve tempo de se desviar do golpe rápido, foi quando recebeu seu primeiro corte no braço. 

O guerreiro mais corpulento já havia se recuperado e partiu para cima dela com dois golpes rápidos de sua arma o primeiro a acertou na coxa, cortando a pele, mas o corte foi tão leve que ela fingiu não ter sido atingida e se desviou do segundo. Por um reflexo escapou da morte da lâmina do guerreiro de jingasa, que fez um longo corte em seu flanco, que a teria atravessado se ela não tivesse rodopiado para longe da lâmina. Seus ferimentos já estavam sendo sentidos e ela sabia que tinha que acabar com aquilo antes de perder suas forças, então investiu para cima do homem gordo chutando seus joelhos. O corpulento homem se curvou tentando protegê-los, novamente abrindo sua guarda, foi quando ela plantou seu boken na orelha dele com um poderoso ataque horizontal, fazendo-o perder a consciência imediatamente e se largar no chão como um grande saco de batatas. No entanto, o homem alto não estava satisfeito e a atingiu nas costas. Se não fosse o movimento rápido e corpo esguio da moça ela estaria morta agora. A ronin rodopia sob si mesma e se choca contra a porta de uma casa no pátio. Abaixou sua espada de madeira para sinalizar que precisava de descanso, o alto samurai concedeu, mas se preparou para abatê-la. A mulher se sentia tonta, seus ferimentos cobrando de seu corpo, sua mente escapou para a imagem de seus pais adotivos e tutores. - Haddan, Wisengashi, não posso morrer agora, tenho muito que fazer. A ronin pensou enquanto recuperava forças.

Cambaleando e mancando o terceiro samurai que ela falhou em nocautear aparece, com lança na mão e cara enrugada com expressão de indignada dor. Enquanto o que estava derrubado no chão recuperava os sentidos e se punha de pé. Ela encarou a todos fechou os olhos e meditou, alterando seu estado de espírito, ela guarda seu boken e se coloca em posição, corpo inclinado e mão direita no cabo do boken. O samurai alto parte para cima dela e é recebido com um golpe que saiu com tanta velocidade que ele mal o viu, tão pouco teve tempo de reagir. O boken esmaga o rosto do alto samurai que não consegue completar seu golpe antes de cair. Os outros dois partem para cima dela. O guerreiro enrugado joga sua lança contra a ronin, que evita ser atingida em cheio se desviando, mesmo assim a lança a corta debaixo da axila e se prende em seu kimono, a jogando novamente contra a castigada porta da casa que está atrás dela. A ronin julga ter ouvido um gemido lá dentro da casa e teme que a lança que atravessou a porta tenha feito uma vítima involuntária. Os ferimentos da ronin são extensos, ela não sabe se seu corpo e espírito vão suportar o restante da batalha, não vendo outra opção, ela cede a seu último recurso, liberando toda sua energia de luta ao um grande kiai de guerra. A dor e o corpo são esquecidos e a bruma vermelha que paira em seus olhos substitui sua consciência.



                                                                          ***

Ainda via vermelho quando abriu os olhos, tudo aconteceu brutalmente rápido. A lembrança do combate era forte em sua mente, algo que ela nunca esquecerá. O cheiro da fumaça dos incensos de sua mãe se misturava com a fumaça do fogo quando a porta do santuário foi aberta, Higoi Muzubushi recuava para dentro enquanto cortava mais um inimigo com sua espada, o último de seus guardas, mortalmente ferido com múltiplos cortes e perfurações pelo corpo tropeça para dentro se colocando entre seu senhor e os inimigos e fechando a grossa porta dupla de madeira do santuário com um estrondo, depois, não suportando mais os ferimentos, cai no chão e não se levanta mais. Muzubushi entra cambaleando olhando suplicante para sua mulher e pergunta 

- E nossa filha?

-Ela está segura. Respondeu solene e resignada Mayumi enquanto se levantava, Naginata na mão.

Muzubushi prometera fazer os Date se arrependerem de seu ataque, viu uma oportunidade de cumprir sua promessa ao avistar o decorado elmo prateado do comandante dos Date no mesmo salão da mansão em que ele e sua guarda se encontrava, mas era uma oportunidade perdida no mesmo momento em que surgiu, pois seus homens morriam ao seu redor, enquanto os homens dos Date apenas aumentavam em números. Este ataque foi cruelmente planejado para vencê-lo, justo em um momento em que ele menos esperava um ataque daquela magnitude no coração do território dos Higo. Ousado e fatal, Muzubushi teria aplaudido, se a vítima não fosse ele, sua família e sua cidade.

Logo depois os resistentes portões do santuário são derrubados e vários Date entram no salão, avançam para cima do casal, mas não são páreos para a força e perícia de Muzubushi, nem para os golpes fortes e precisos de Mayumi, caindo frente ao par a medida que se engajavam no corpo a corpo. Quando o comandante deles entra acompanhado com mais um esquadrão de samurais. Um homem alto, usando um Kabuto prateado decorado de formato ogival que termina numa coroa de louros dourada com duas andorinhas douradas voando no topo, sua armadura laqueada de azul e rosa resplandece brilhante embaixo de seu kataginu branco, com uma espada ensanguentada numa mão e um lenço de seda limpo numa outra. Seu rosto liso e belo com dois olhos azuis claros olhando fixamente para Muzubushi.   

– Eu, Date Masakane - senhor comandante da frota Date e capitão da Gaivota Marinha, filho de Date Kosakune e herdeiro da Baía das Carpas - o desafio, Muzubushi, para um duelo. Enquanto fala Masakane limpa sua espada com o lenço, fazendo o trabalho com presteza, mas sem em nenhum momento tirar os olhos do senhor de Higo no Toshi. - Se aceitar sua mulher viverá e você será honrado como herói na sua derrota.

Muzubushi está ferido e cansado e sabe que certamente irá perder o duelo, mesmo assim sabe que esta é a única chance que possui de pelo menos cumprir sua promessa e colocar um gosto de cinzas na vitória dos Date. Sabe também que é uma chance de pelo menos barganhar uma saída honrada para sua família, cansado como está, sua família é tudo que importa no momento. Mas isso não o abaterá, tão pouco demonstrará um centímetro sequer de fraqueza perante inimigo tão digno de lhe tirar a vida.

- Você é um tolo, Masakane. Rosna Muzubushi. Fala como se já tivesse vencido! Aceito seu duelo, desde que prometa que minha família será deixada em paz, e que meu povo seja tratado com honra e cortesia!

- Assim prometo. Masakane fala enquanto termina de limpar sua arma com o lenço e a guarda na bainha.

O duelo teve inicio, após os adversários andarem em círculos se estudando, eles param de frente um para o outro para iniciar o derradeiro embate. Muzubushi pratica sua postura, com a Katana a sua frente com a ponta apontada para o adversário e posição inclinada sobre sí, arrastando para trás a perna direita, característica do estilo de luta dos duelistas Higoi. Masakane toma a tradicional e mortal forma de duelo dos Date, com a arma guardada na bainha, posição ereta, arrastando levemente a pé esquerdo a frente do direito e a mão direita repousada com a palma aberta no cabo da espada, como se oferecesse um presente.

Após se encararem por um instante, medindo as forças um do outro eles começam. Mazakane saca primeiro e corta Muzubushi no peito na altura do ombro, cortando os dois braços. O golpe de Masakane deixou Muzubushi sem força nos braços fazendo seus golpes de retaliação fracos e fáceis para Mazakane aparar. Muzubushi aplica um forte golpe contra Masakane, que corta parte do enfeite de seu elmo fora e o fere no ombro, sua arma terminando cravada firmemente no chão, Muzubushi falha em retirá-la com velocidade devidos aos ferimentos e cansaço. Masakane aproveita a chance e desfere um terrível golpe contra Muzubushi, que só não o matou pois ele levantou o ombro para o sode da armadura lhe proteger, mesmo assim o golpe rasga-o terrivelmente no rosto. Finalmente Muzubushi, já cansado e sem forças, baixa a guarda e murmura uma curta prece a seus ancestrais. Masakane apenas lhe dá tempo suficiente de terminar a prece e, olhando nos olhos do famoso senhor Higoi Muzubushi, o elimina com um preciso golpe. 

O corpo do senhor de Toshi no Higo tomba diante do esconderijo da pequena dama, sangue de seu pai se mistura com as lagrimas silenciosas nas bochechas da garotinha.

- Prometi que deixaria sua família em paz. Masakane fala para o moribundo Muzubushi. - Mas não haverá paz para nenhuma carpa que não se ajoelhe diante dos Date, terei que pegar sua mulher como refém. Após falar isso olha para Mayumi com olhos frios como gelo. - Soube que tem uma filha, onde ela está?
Mayumi dá alguns passos para traz e saca uma fina aiguchi oculta em seu obi, mantendo-a estendida entre ela e o comandante Date. 

- Você prometeu que deixaria os Higoi em paz...

- Isso não é possível. Retruca Masakane, o motivo de tudo isso são os Higoi. Vocês devem lealdade aos Date e no entanto se rebelam, você e sua filha são necessários para atingirmos a paz, você como refém será o suficiente para seu primo finalmente se decidir em renovar seus votos ao clã Date. 

Só de pensar em Higoi Ooshibu, o autor do cisma de sua família traz nojo ao comandante Date, mas ele não demonstra isso. Masakane vê a postura de Mayumi e decisão nos olhos da jovem mãe, decide se aproximar com cautela para que ela não faça algo precipitado e force-o a se defender.  

- Agora...onde está sua filha?

- Nunca fomos dos Date, e nunca seremos! 

Com isso Mayumi vira a mortal lâmina de seu Aiguchi contra seu próprio pescoço e rasga sua veia direita. Masakane observa impotente ela cometendo Jigai e sua vida se esvaindo. Ele começa a correr em direção a Mayumi que mesmo morrendo se esforça para se manter dignamente em pé, Masakane alivia sua dor aparando-a nos próprios braços e assiste a vida da bela Mayumi fugir de seus olhos. O comandante Date repousa o corpo da senhora de Higo no Toshi no chão e toma um momento para se recuperar da dramática cena. Este momento foi necessário para se convencer que a morte deste honrado casal era necessária para a glória dos Date, o fato de que ele acabara de colocar um cão roliço e sem honra como líder dos Higoi era mera consequência.

- Achem a garota!. Masakane ordena para os demais samurais. Higoi Ooshibu não se renderá enquanto não souber que todos seus primos foram lidados, quero que tragam-na viva para mim! Chega de mortes!

Masakane não queria que aquilo terminasse assim, Muzubushi teria que morrer de qualquer forma pelo perigo que ele representa vivo e pelas várias mortes que ele promoveu contra os Date, mas Mayumi era uma legitima dama, não merecia morrer assim, se ela tivesse aceitado se tornar refém junto com sua filha isso seria o suficiente para os Higoi cessarem as hostilidades e Ooshibu teria que conviver com isso, mas preferiu o caminho de uma morte honrada. Quantas mortes são necessárias para se satisfazer a honra? Com a morte dos dois, com certeza o velho carpa asqueroso ficará feliz. Agora, tudo que está entre Ooshibu e a liderança total da família Higoi era uma pequena garotinha. Ooshibu  faria de tudo para tirar a vida da pequenina e ela em seus cuidados certamente teria um fim que ninguém poderia jogar a culpa no monstro sovina. Mas se a garota sobrevivesse e, de alguma forma ficasse longe das garras do velho, ele ia fumegar de frustração pelos restos minguantes de sua vida. E nada traria mais prazer a Masakane do que fazer Higoi Ooshibu sofrer.

Mas como resolver essa situação? Se a pequena dama se tornar um refém ela iria direto para Ooshibu que com certeza daria um jeito de mata-la, e isso significaria sangue inocente nas mãos de Masakane, deixá-la em paz, como prometera seria manter a fagulha da rebelião acesa e isso também seria inaceitável. Masakane tinha um dilema para resolver, e ele não via nenhuma saída nobre. Mas uma coisa era certa, primeiro deveria encontrar a garota.


Enquanto isso a pequena Muzumi se esconde no piso falso. A visão de seu pai logo alí morto a assombra ao mesmo tempo que se esforça para não gritar, seu rosto é banhado por lagrimas e sangue e assim ela fica no escuro, apenas esperando a chegada do silêncio. 

Glossário de Termos:

Aiguchi: Uma fina adaga que pode ser facilmente escondida nas vestes do usuário, comumente usada por mulheres e assassinos.

Kataginu: Vestimenta parecida com o Haori. O Katagino é usado por cima do kimono ou armadura e possui ombreiras exageiradas e triangulares, dando um aspecto de ombros largos ao usuário.

Kiai: Grito usado em conjunto com um golpe marcial. Muito utilizado nas artes marciais, como o Karate.


Sode: Peça de armadura com a finalidade de proteger os ombros e costas do usuário.

Parte 1
Parte 2
Parte 4


segunda-feira, 18 de março de 2013

A Dama da Espada, parte 2

Quando ela abriu seus olhos, a ação já tinha acabado. O tempo que a arma de seu executor levou para chegar a seu pescoço foi muito curto. Desde que os samurais a abordaram na entrada da vila armados com arcos e preparados para uma batalha ela soube que não tinha chances de vencê-los, então entrou num estado de meditação profundo para se preparar para uma nova oportunidade. Não se importou quando suas vendas foram retiradas, nem quando suas mãos foram desatadas, também não se incomodou de reagir quando seu executor sussurrou para ela sobre seu pai. O que lhe chamou atenção foi o barulho dos pés do jovem samurai se colocando em posição, o som que sua espada produziu ao ser colocada em posição de execução e o fôlego tomado por seu captor para executá-la, em conjunto com os murmúrios de desaprovação dos camponeses que provocaram reclamações de indignação dos outros samurais. Quando ela abriu seus olhos azuis ela já havia sacado seu boken numa velocidade surpreendente e enterrado sua ponta na barriga de Kôra Keitaro, bem abaixo de seu obi, penetrando através do encaixe de seu do e o seu kusazuri. O golpe foi forte o bastante para que Keitarô se curvasse em sua própria barriga, perdendo toda a precisão do golpe e enterrando sua espada na terra a centímetros da ronin. No mesmo instante ela já havia preparado seu boken e ainda de joelhos golpeou o rosto de Keitarô com tanta força que o jogou no chão espirrando sangue. A garota estava de pé ao mesmo tempo em que Keitarô caia no chão. Tudo foi tão rápido que aqueles que observavam a execução notaram apenas o segundo golpe, tomando a reação de Keitaro ao primeiro golpe apenas como um mal estar do samurai, ou ineptidão com sua arma, ou apenas pura sorte da ronin. 

Antes que os homens de Keitarô conseguissem esboçar uma reação, antes mesmo que alguns deles tivessem notado o que acabou de acontecer, a jovem ronin já corria em disparada para fora do círculo que eles fizeram ao redor dela e de seu líder. O primeiro a reagir foi um jovem magro e franzino, com um rosto magro adornado apenas com um fino bigode, não possuindo nenhum outro pelo no rosto, salvo pelas sobrancelhas curtas e altas. Seus cabelos, raspados até o topo do crânio e o restante amarrado num coque atrás da cabeça, estão ocultos por um jingasa de couro com os símbolos dos Higoi e com o ideograma “Hanji”, o identificando como magistrado da cidade. Higoi Sui - como o homem se identifica - suspeita quem seja a mulher, aqueles alhos azuis profundos são inesquecíveis para o magistrado, que lhe lembra dos tempos prósperos e felizes de sua infância naquela vila. Mesmo dividido ele ordena que seus homens bloqueiem a passagem da moça, mas isso pouco serviu, seus homens estavam com pouca vontade de impedir a fuga da mulher. Porém um deles estava inspirado o bastante para obedecer, pois não reconhecia a fugitiva e estava ansioso para se destacar. O ashigaru se interpôs no meio da passagem encarando a garota e abaixando sua lança. A ronin pareceu que não se deu conta do guarda, pois simplesmente o utilizou como um apoio para saltar para cima de uma casa e desaparecer no emaranhado de becos e ruas da vila.
Embasbacados e confusos pelo que acabaram de presenciar, samurais e guardas andavam impotentes tentando se decidir o que fazer enquanto seu comandante se contorcia no chão buscando por ar que lhe faltava ao mesmo tempo em que se engasgava com saliva, lágrimas e sangue. Mais confusos ainda os guerreiros ficavam com a comemoração de todos os camponeses ao redor que se colocavam no meio das ruas, impedindo que algum guarda ou samurai mais decidido desse continuidade a perseguição. Finalmente, depois de quase um minuto que se arrastou pelo que se parecia vários, Kôra Keitarô se recuperou o suficiente para se sentar e esbravejar a todos que fossem atrás da mulher. Com a ordem, seus samurais se puseram a perseguir enquanto os guardas foram instruídos pelo magistrado a defender e tratar dos ferimentos de Keitarô, uma forma que ele encontrou para se abster da perseguição da ronin que tanto representava a glória passada da vila. Os camponeses apesar da vontade de ajudar a garota nada podiam fazer contra os decididos guerreiros e deram-lhes passagem. Teve inicio a perseguição nas ruas da vila.
 
                                                                              ***
A perseguição na vila ficava mais onerosa para os atacantes cada vez que eles ganhavam terreno, a vila era plana e espaçosa próxima ao cais, mas o caminho até a mansão fortificada era uma subida inclinada e o terreno era mais fechado por conta das pequenas ruas da cidade que se espremia no vale entre colinas. Uma mata ocupava a colina da esquerda, a mansão fortificada do Tono ocupava a colina da direita e era para lá que os defensores recuavam. Para cada defensor morto, três atacantes eram vencidos. Arqueiros da carpa escondidos sobre os telhados faziam chover flechas sobre os atacantes e depois desapareciam nos telhados, os defensores corriam para becos e ruelas e lá se postavam para receber com beijos de aço os atacantes que seguiam a mesma direção. Havia pouco espaço para os números, e os atacantes se viam obrigados a enfrentar os defensores aos poucos, muitas vezes em combate singular. Não podiam escolher outros caminhos, pois quando esses não estavam bloqueados por paredes de madeira e entulho, eram armadilhas mortais de fogo e flecha. Mas cada defensor morto era uma grande vitória para o atacante, pois as carpas eram poucas e as andorinhas eram muitas. Assim os atacantes se moviam - lenta e inexoravelmente - para a mansão. Aço contra aço, conquistando de forma irremediável a vitória. Restava aos defensores apenas o consolo de matar o máximo de Date que eles conseguissem. No cair da noite as andorinhas estavam nos portões da fortificação. A mansão fortificada era uma defesa formidável. O casarão principal era separado do muro de pedra por um pátio que era designado para o senhor da cidade fazer recepções ao ar livre e promover eventos e competições entre seus vassalos. O muro de pedra se erguia em três metros, a única forma de passar por ele era escalando ou arrombando os grandes portões de madeira reforçado da mesma altura dos muros, mas coroado por uma guarita, onde os defensores podiam fazer chover flechas e chamas. A fortificação era uma vantagem, os defensores sabiam, mas só não sabiam do que ela valeria frente a tantos invasores como aqueles.

O fogo, os gritos, as flechas zunindo e o clangor das espadas acordaram a pequena dama que se escondia assustada dentro de seu quarto. Quando os atacantes chegaram na colina, Higoi Mayumi abriu a porta do quarto de sua filha fazendo a menina gritar, a mãe chegou até a filha trajando uma armadura leve e uma pintura de guerra, olhos aflitos e amorosos olhando diretamente para os olhos azuis da garotinha. Mayumi abraça com força sua filha, a menina se aconchega nos braços da mãe enquanto brinca curiosa com as amarras de seda do peitoral dela. Higoi Mayumi sorri ternamente e sussurra para a menina:

- Agora, minha filha, quero que você tenha muita coragem. Quero que você venha comigo até o esconderijo que lhe mostrei, lembra-se dele?  Nós vamos para lá agora, permaneça lá e não solte nenhum ruído, não importa o que veja, não importa o que ouça. Saia apenas quando tudo estiver em silencio e não antes disso, você me entendeu? - A menina fez que sim com a cabeça e ia começar a chorar quando sua mãe a reprovou de forma amável, mas firme. Pediu com um gesto para ela se manter em silêncio. A garota engoliu o choro e seguiu sua mãe até o santuário da mansão, onde ficava o esconderijo.

O santuário era um salão espaçoso sustentado por quatro grossas e antigas pilastras de madeira. O santuário era usado tanto para exercícios físicos e espirituais, onde os habitantes da mansão iam meditar na frente da estátua de bronze de Raman que ficava na oeste do templo, juntamente com urnas contendo as cinzas dos ancestrais da família e seus respectivos ramans feitos de madeira ou pedra. As paredes do santuário eram de madeira enfeitada com obras elaboradas de caligrafia e armamentos de ancestrais da família. Lá também havia um suporte com armas para treino penduradas, pois lá também se exercitava o poder marcial dos moradores. A entrada do santuário era um grande portão duplo de madeira, com 3 metros de altura, ladeado por um arco em formato de torii, folheado em ouro. A pequena Muzumi fez seu melhor para não fazer nenhum som, enquanto sua mãe entrava no santuário e levava sua filha para a ala oeste, perto da estátua de Raman.

Ao chegarem ao esconderijo, um piso falso embaixo do tatami do santuário, sua mãe a colocou lá e a enrolou em lençóis para melhor disfarça-la e novamente a instruiu. - Lembre-se, nenhum ruído até que tudo fique em silencio, depois agradeça a Raman e fuja para a mata, não deixe ninguém lhe ver, entendeu? - A menininha fez que sim com a cabeça enquanto olhava a contemplativa e agradável estátua de bronze de Raman, mas quando sua mãe ia fechar o alçapão ela tentou chamar pela mãe uma vez com a voz chorosa. O pedido de sua filha partiu o coração de Mayumi, mas ela trancou a filha mesmo assim, acendeu incensos para os kami e começou a rezar para que eles lhe dessem força para matar o máximo de Date antes de morrer e que sua filha ficasse segura e conseguisse fugir para crescer e viver.

Lá fora alguns defensores conseguiram entrar na mansão antes dos atacantes, em formação protegendo um homem de ataques e flechas. Este home traja de armadura negra e vermelha, acobertada por um haori cinza com os mon dos Higoi e dos Kora. Ele estava empapado em sangue inimigo, com uma sangrenta katana empunhada. O homem tinha um rosto severo e olhos afiados de um guerreiro experiente, sem qualquer pelo que não fossem os das sobrancelhas esguias, seria um homem bonito se não fosse uma depressão em forma de sulco em sua bochecha esquerda que risca seu rosto até o pescoço.  Ele é o Tono da cidade, Higoi Muzubushi. Os portões foram fechados atrás dele e seus homens deixando de fora leais sobreviventes que se voluntariaram para se sacrificar e dar tempo para seu Senhor entrar em segurança na fortificação. Seus sacrifícios não serão em vão, Muzubushi pensou, para cada um de vocês levarei dez deles para o Jigoku.

- Para as muralhas! Muzubushi gritou. - O traiçoeiro exército Date se aproxima, vamos dar a eles fogo e aço e fazer com que eles se arrependam amargamente por este ataque! Para as armas, Kôra! Para uma morte honrosa e heroica, pois nossos ancestrais nos esperam no Yomi!

O grito inspirado dos defensores foi ouvido de longe e foi respondido por um grito de guerra de seus atacantes. Fogo e flecha foram trocados pelos dois lados. Os Kora mataram muitos Date que avançavam e escalavam as muralhas, mas também perderam homens. Gradativamente os Date conseguiam escalar os muros e enfrentar no corpo a corpo os samurais defensores. Muzubushi matou muitos que ousavam enfrentá-lo no corpo a corpo, mas quando os atacantes rechaçaram os defensores do portão, Muzubushi não viu alternativa a não ser se refugiar no casarão fortificado chamando sua guarda pessoal consigo. Ele disse que ia fazer os Date se arrependerem do ataque, e pretendia cumprir sua palavra. O pátio estava cheio de inimigos, os poucos defensores se viram cercados, mas havia ainda muito antes que os Date se considerassem vencedores.

Glossário de Termos:

Ashigaru: Soldado com pouco ou nenhum treinamento marcial formal.

Do: O peitoral de uma armadura.

Hanji: Magistrado

Haori: Sobretudo sem mangas utilizado por cima do kimono ou armadura. O uso de um haori denota status para quem o usa.

Jingasa: Chapéu cônico em forma de prato ou tigela. Pode ser feito de palha de arroz (típico para monges e camponeses), couro e metal (usados por soldados e samurais).

Jigoku: O inferno de Ryuu Tazai.

Kusazuri: O saiote de uma armadura.

Raman: Raman foi um profeta oriundo da distante Sheeva que se tornou um deus, criando a religião conhecida como Ramanismo. Quando o Ramanismo chegou em Ryuu Tazai, acabou assimilando aspectos da religião local, por isso que em Ryuu Tazai há Raman, o deus-profeta (em maiúsculo) e vários ramans (em minúsculo), que são ancestrais venerados que morreram em honra.

Tatami: Piso modular encontrado em casas e templos de Ryuu Tazai.

Tono: Senhor

Torii: Arco de madeira considerado sagrado. Atravessar um torii é um ato de purificação.


Yomi: O paraíso de Ryuu Tazai.

domingo, 17 de março de 2013

Ryuu Tazai: Costumes e Culturas


Ryuu Tazai é uma terra com diferenças bem acentuadas de Aester, seus costumes, tradições e cultura forma moldados por fatores e realidades bem distintas do ocidente Aesteriano, e por isso merece um destaque maior ao se falar sobre seus costumes e cultura. Este artigo começa por lançar uma luz na ordem social de Ryuu Tazai, também conhecido como a Ordem Celestial.

A Ordem Celestial é fortemente baseada nos ensinamentos de Zonghi, um sábio andarilho que atingiu a iluminação. Segundo seus ensinamentos, todas as almas têm o seu lugar, e a humanidade deve seguir o exemplo dos deuses, pois os homens são reflexos dos corpos celestiais. Aqueles que desafiam o Ordem Celestial envergonham e corrompem o propósito de sua existência, não apenas se tornando uma alma sem honra, mas arriscam reencarnarem como alguém inferior.

Existem 4 grupos distintos de pessoas na Ordem, os samurais, os camponeses, os artesãos e os comerciantes.

Samurais

Das castas sociais de Ryuu Tazai, não se pode subir mais do que a casta samurai. O símbolo do samurai é seu Daisho, as duas espadas – a espada longa chamada de Katana e a espada curta , a Wakizahi. Apenas um verdadeiro samurai pode portar essas armas, qualquer outro indivíduo visto usando este armamento, ou mesmo o tocando está arriscando sua própria vida. Todos os membros da casta samurai tem o direito a um julgamento caso uma acusação seja feita por outro samurai. Se a acusação é feito por um membro da casta inferior ela é simplesmente ignorada, a não ser que o samurai queira responder por ela. Em contrapartida, se um membro de uma casta inferior ofende um samurai de alguma maneira, o samurai tem direito a julgar e executar uma punição por esta ofensa como ele achar necessário. Isso não significa que o samurai pode fazer qualquer coisa, todo o samurai responde a um Daimyo que é seu senhor, e tem que obedecer a suas ordens sem pensar duas vezes, sob risco de grande desonra, execução ou até mesmo ser forçado a cometer seppuku – o suicídio ritual. Da mesma forma, se um samurai assassina um camponês, ele pode sofrer punições, pois aquele camponês pode servir a um daimyo e, com sua morte, a produção desse senhor estará prejudicada e ele poderá ter dificuldades em alimentar suas tropas. Efetivamente neste caso, o samurai cometeu um crime contra outro samurai, embora que indiretamente.
 
A casta samurai é muito mais complexa do que parece, apesar da maioria dos samurais serem guerreiros (Bushi), nem todos o são, um samurai pode ser um shugenja – que é um sacerdote dos elementos, podem ser cortesãos – versados nos caminhos da corte e da palavra (Teishin) e artesãos – samurais que descobriram o caminho da expressão artística (Shokunin). Estes outros tipos não são versados no combate como seus iguais guerreiros, mas são tão importantes para o império como qualquer outro.
 
A Casta samurai possui camadas, apresentadas abaixo:
 
O Imperador

Tecnicamente um samurai, o imperador na realidade existe acima do sistema de castas, sua posição a mais alta possível não podendo ser igualada, considerado um deus vivo entre mortais. Ele é dono de todas as terras do Império, e permite para aqueles que lhe juram lealdade o direito de gerenciá-las.
 Àqueles que gerenciam as terras devem pagar taxas anuais, coletados pelos Kaikeis imperiais. O imperador também controla a religião Tazaiani, efetivamente sendo ele a voz dos céus, por isso o título – “O Filho dos Céus”.  Apesar dos costumes, leis e tradições definirem Ryuu-Tazai, o imperador é árbitro final dessas coisas. 
 
Qualquer comando que o imperador faz, é considerado Lei Imperial. Naturalmente, muitos imperadores usam o poder com cuidado para evitar se contradizerem e prejudicar a fé que seus seguidores depositam nele. Os Grandes Magistrados (Haidaikans) fazem valer as leis do Imperador, e o Exército Imperial serve como força de combate pessoal dele. Aqueles que desafiam o Imperador enfrentam a fúria dos Haidakans e do Exército Imperial, se não de toda Ryuu-Tazai.
 
Claro que nem sempre o imperador teve poder absoluto, já houve na história de Ryuu Tazai tempos em que a posição do imperador era apenas figurativa, o poder verdadeiro estando nas mãos do Xogum, ou do Campeão Supremo (Saiko Haidaikan), mas isso é muito raro, se não único na história do império, providencia que foi tomada apenas quando o imperador não era capaz o bastante de realizar seu ofício. Mesmo assim, o Imperador ainda era o poder absoluto no Império, ele só escolheu que outros exercessem o poder por ele. 
 
O último Imperador de Ryuu Tazai foi Teikami Higaiuchi, que morreu num terrível incêndio do Palácio Imperial. Correntemente, o Imperador é Teikami Makoto, um garoto de 5 anos.
 

Kuge

Kuge são membros de elite da casta samurai, sua nobreza reforçada com cargos poderosos no governo. Os Senhores (Daimyo) das famílias imperiais, o Saiko Haidakan, o Campeão Espiritual (Shikken), o Chanceler Imperial (Daijokan), e o Conselheiro Imperial (Kanpaku). Também é membro do Kuge o Generalíssimo (Xogun), que tem um poder muito próximo ao do próprio imperador, algumas vezes até superando-o. Pois ele é o responsável por toda a força militar do Império, e o Exército Imperial está sob seu comando, mas mesmo o Xogun é vassalo do Imperador.

Ainda parte do Kuge, mas diretamente abaixo da Corte Imperial, estão os Daimyos dos Grandes Clãs que possuem grandes territórios e várias outras famílias nobres sob seu comando. Daimyos de clãs menores, embora tecnicamente o mesmo patamar de Daimyos da Clãs Maiores, possuem menores controles territoriais e exércitos menores, fazendo-os efetivamente inferiores aos senhores dos Grandes Clãs. O aspecto de igualdade de poder entre os dois tipos de daymio sendo nada mais que cortesia, ou mera formalidade.
 
Existem também os Daimyos de famílias, que estão abaixo dos daimyos de clãs, novamente, um senhor de uma família de um grande clã tem mais importância efetiva que um senhor de família de um clã menor.
 
Os menores membros dos Kuge são os familiares diretos dos Senhores de famílias, enquanto muitos samurais tem permissão em usar o nome de uma casa nobre, apenas alguns são membros efetivos dos Kuge – sua linhagem estando diretamente relacionada com os fundadores da família. O restante tem status de servos, compreendendo o Buke.

Existem duas exceções notáveis. A primeira delas são os membros de famílias de clãs menores, mesmo os diretamente relacionados tem o status de Buke, não Kuge. A outra exceção são os Kobayakawa. que apesar de Kobayakawa ter sido um ronin, teve seu status e o status de sua família direta elevados para Kuge. O restante dos Kobayakawa – e as demais famílias vassalas deles – não podem galgar mais que os Buke, quando muito.

Buke

A maioria dos samurais são Buke. Buke são samurais que não possuem  terras ou títulos, mas servem a uma grande casa. Samurais em serviço de uma casa geralmente tem permissão para usar o nome da casa. Enquanto existem poucos samurais com laços de sangue com os Kurô originais, milhares de buke usam o nome Kurô. Apesar de que algumas famílias vassalas manterem seus nomes originais, é considerado indelicado e desleal usar este nome em favor ao seu senhor quando interagindo com outros de fora de seu Clã, na melhor das hipóteses ele pode usar o nome da família vassala em segundo plano com o nome da grande família. Por exemplo, Ashika Shinara é vassala da família Kurô, iria se referir como Kurô Shinara, ou Kurô Shinara da casa Ashika, quando interagindo com aqueles de fora de seu clã.
 
Os buke mais proeminentes são aqueles que servem como burocratas ou do corpo militar, incluindo governadores provinciais (Chiji), oficiais (Yakunins), conselheiros honoráveis (Hatamoto), prefeitos (Jitôs), conselheiros de um senhor (Karô), Haidaikans e Magistrados provinciais (Daikan) primariamente guerreiros e cortesãos experientes que mereceram suas posições. Filhos não primogênitos de casas nobres são buke por padrão, já que eles não possuem herança e não servem a nenhum propósito direto, eles devem provar merecer os mesmo privilégios que seus irmãos mais velhos. Samurais que são soldados comuns fazem parte do restante do buke, muitos deles são quase samurais (Ji-Samurai), membros de famílias vassalas que ainda não provaram merecer o nome de uma grande família. A maioria desses samurais são muito ambiciosos. 
 
Finalmente, senhores das grandes famílias Kobayakawa, são membros do Buke, com status tão importante quanto os de Jitô ou Chiji, seus familiares diretos conseguem ser considerados como ji-samurai.

Ronin

Ronin também são incluídos nos Ji-Samurai, que são samurais que, por deslize, nascimento ou circunstância não serve a nenhum senhor e são samurais sem mestre, um fenômeno que geralmente invoca desconfiança e repulsa entre verdadeiros samurais. Enquanto os Ronin não possuem um lugar real na sociedade, eles são samurai e devem ser tratados como tal. Como resultado, muitos Tazaiani não sabem como lidar com eles. Muitos samurais acham que eles são lembretes ofensivos do preço do fracasso. Camponeses os consideram perigosos, cartas selvagens que não respondem a ninguém e que podem desencadear terrível violência sem aviso. Ironicamente, um ronin é quase sempre forçado a uma vida de mercenário ou banditismo. Como samurais, fazer trabalho mundano seria abaixo de sua posição, uma violação da Ordem Celestial. Então a honra os compele a viver uma vida como  cabe ao seu status, como guerreiros. Alguns samurais farão qualquer coisa para que ronins sejam acusados de alguns crime, assim sendo executados e esquecidos, outros os veem como ferramentas úteis, mercenários dispensáveis que podem ser usados em trabalhos muito arriscados para se arriscar um servo leal.

Ashigaru

O menor patamar dos membros do buke são os ashigaru, ou soldados de carreira.  Tecnicamente camponeses, eles possuem treinamento muito melhor do que um camponês ou trabalhador ordinário. Enquanto dificilmente comparáveis a samurai sobre qualquer aspecto da imaginação, ashigaru são guerreiros peritos de seu próprio estilo. Muitas famílias ashigaru serviram seus senhores por gerações, e possuem uma lealdade inabalável como a de um samurai.  Muitas casas têm várias famílias de ashigaru hereditárias, servindo como guardas, guardas de magistrados (doshin) e batedores durante tempos de paz.
 
Novamente, um detalhe interessante, sendo originalmente todos camponeses guerreiros (budokas) o clã Kobayakawa, em sua maioria, ainda são compostos de budokas leais, estes budokas Kobayakawa, no entanto, podem ser tão mortais em combate como quaisquer outros samurais como provaram em sua rebelião que deu origem ao clã.

Os outros 3 grupos da ordem celestial eu descreverei em outros posts. 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Dama da Espada

Ok, esse post aqui é um conto que eu comecei a escrever baseado em Ryuu Tazai e sobre um dos muitos personagens que vivem na minha mente. Não está completo aqui, só duas partes, mas já dá para começar :)

Atualização: Graças ao grupo Oficina de Criação Literária do Facebook eu revisei e melhorei o texto - também coloquei um Glossário de Termos ao final do texto, para vocês que não estão familiarizados com os estrangerismos de Ryuu Tazai.

Ah, se quiserem saber mais sobre Ryuu Tazai, acessem este link: Origem de Ryuu-Tazai



O céu é claro e com poucas nuvens numa pacata cidadezinha de pescadores na província dos Higoi. O sol brilha claro e caloroso, iluminando telhas e telas das casas que pontuam o vale. No pátio principal, uma sombria cerimônia tem andamento.

A solene multidão de curiosos observa o grupo de seis samurais, todos vestidos em armaduras cinza, apenas o peitoral e capacetes laqueados em um vermelho sangue que cercam um sétimo samurai que parece ser o líder do grupo, sujeito alto e forte, trajando uma armadura samurai completa, inclusive com o orgulhoso brasão da família Kora - uma máscara facial representando um rosto samurai irado – estampado nas ombreiras da armadura. Duas espadas presas ao seu cinto de seda e um arco lançado por sobre as costas são seus armamentos.Em sua cabeça se encontra um elmo cinza com o topo laqueado de vermelho, adornado por uma meia lua carmesim.

A frente do líder, com mãos amarradas e uma venda nos olhos, está uma jovem ronin. Sua aparência é das mais simples, de longos cabelos negros amarrados num rabo de cavalo por uma delicada - porém firme - fita azul, usando nada além de um simples quimono branco de mangas longas e um fino e usado gibão preto por baixo, presos embaixo de uma grossa e surrada calça preta e larga, tudo amarrado numa faixa preta que segura também um pedaço de madeira cortado na semelhança de uma espada. A jovem foi trazida para a cidade naquele estado, amarrada e vendada e cercada por aqueles samurais. Numa procissão que assustou os camponeses, pois achavam que os fortes samurais traziam um perigoso rei bandido ou um oni¹, não uma simples e pequena garota.

O rosto do líder estava obscuro pela sombra de seu vistoso elmo enquanto ele conferia as amarras e venda da prisioneira, mas quando ele levantou o rosto para falar aos camponeses, revelou um rosto jovem demais. Sua face, lisa e oleosa era coberta por uma penugem e fiapos de pelo que imitavam pobremente uma barba, entre suas finas e bem feitas sobrancelhas estava um cravo grande e farto. Os lábios, no entanto já eram bem adultos, mas a voz que saiu deles, não se decidia se era de criança ou de um homem.

- Cidadãos de Higo no Toshi! – Esbraveja o líder com aquela voz juvenil - me chamo Kora Keitarô, filho de Kora Kiosonagi, o Defensor do Farol, e irmão de Kora Kanako, Senhora do Farol de Pedra!

Kora Keitarô para subitamente o discurso e vasculha com os olhos a multidão a procura de alguma ofensa, a multidão não ousa nem sequer olhá-lo para não arriscar que ele veja algum insulto onde não há nenhum.

- Esta... mulher que está a minha frente é uma traidora de um honorável pacto entre os Kora e os Date, uma pária de nosso povo, banida para sempre de nossa terra. No entanto, desafia os desígnios de seus melhores e os dos deuses voltando aqui. Por esta afronta ela deve morrer, aqui e agora!

                Os confusos cidadãos se esforçam para se lembrar daquela mulher que é acusada de ser uma pária, banida para sempre do território do clã Kôra sob a punição de morte e se admiram com a serenidade e calma que a moça mantém diante da morte certa, sua aura pacífica quase tangível.  Apesar dos maus tratos típicos de alguém que vaga pelo mundo, sua pele é clara e de aspecto delicado, o corpo da ronin está curvado, como se aceitasse o destino cruel. Seu quimono um pouco aberto revela que seu peito está envolto por uma faixa de algodão.

Ela se encontra vendada, o grosso pano de linho negro deixa impossível a tarefa de se desvendar a cor de seus olhos ou o formato de suas sobrancelhas, suas mãos se encontram duramente amarradas, impossibilitando que a plateia veja a habilidade da ronin com aquela espada de madeira que ela carrega, mais um brinquedo que qualquer outra coisa.  Apesar do calor e da situação desesperadora, sua respiração está tranquila e compassada, como se esperaria de um raman².

Keitaro não percebe nenhuma afronta a sua pessoa, mas notou certa empatia dos camponeses para com a pária e ficou furioso com isso, desejoso de matar a todos pela traição de sentir algum amor por um traidor do clã, quem quer que fosse. Mas decidiu transformar a energia daquela raiva em energia letal que usaria para decapitar sua prisioneira. Mas antes ele sabia que precisava tirar a compaixão daqueles camponeses. Keitarô ajusta-se numa pose ameaçadora de executor, ajustando sua katana mais próxima ao corpo, em posição de saque e se posta decidido atrás da solene garota.

Com um movimento brusco, Keitarô pisa na panturrilha da ronin, a fazendo cair por sobre os próprios joelhos. Ele faz este movimento enquanto observa a multidão que os cerca, sem tirar a mão do cabo de sua espada. O medo fará eles desistirem da compaixão -O medo.

- A criatura ajoelhada a minha frente é indigna de continuar vivendo e indigna de qualquer piedade! A mera teimosia dela em escolher continuar respirando é um insulto a paz de quinze anos com os Date, que agora são valiosos aliados dos Kora! Ela é uma traidora que mancha a paz e a honra de nosso clã! Aqueles que possuem piedade a traidores são cúmplices deles e devem ter destino igual!

Todos recebem as palavras do jovem samurai com medo, mas sua atitude não ajuda sua causa. Keitarô e sua comitiva já estão a três dias na cidade. Já em sua chegada, todo armado e encouraçado, como se fosse para uma parada ou uma batalha, demonstrou arrogância e ansiedade, exigindo obediência não só dos camponeses, mas do próprio magistrado da cidade. Seu comportamento era de alguém ansioso para provar alguma coisa, tudo por conta de uma única ronin.

Há quinze anos a cidade não possui senhores, seu último senhor era justo e amado, mas a guerra o levou junto com todos os jovens filhos de samurais e de servos que lutaram pelos seus senhores - deixando apenas os fracos demais para lutar, os fugitivos e os covardes. A vila lúgubre de hoje é apenas uma casca do que a cidade já foi, para sempre imersa em vergonha.

Para os cidadãos tanto fazia o que Keitarô falava. Afora sua voz aguda demais para sua corpulenta forma, ninguém daquela cidade nutria amor pelos Date que tanto os fizeram mal, sem falar que a arrogância de Keitarô não ajudava em nada no ânimo dos camponeses de ver a lei ser cumprida. E, ainda por cima, aquela ronin tinha alguma coisa, emanava um sentimento nostálgico de tempos em que tudo era justo e certo, um tempo em que orgulho e honra andavam num equilíbrio perfeito pelas ruas e pátios da outrora vibrante cidade pesqueira.

Finalmente Keitarô desembainha sua espada e, com um movimento do punho, mostra sua lâmina para a silenciosa plateia, após completar uma volta mostrando a lâmina cerimoniosamente, desata as amarras e venda da prisioneira.

- Vou concedê-la o privilégio de morrer como um samurai, em memória de seu pai - Keitarô sussurra no ouvido da moça e tudo que ela faz é se curvar e oferecer o pescoço. A cidade entra num triste e apreensivo silêncio, uma expectativa sombria que tudo o que resta de esperança e orgulho da cidade está a ponto de ser desfeito por 90 cm de aço. Finalmente os pobres aldeões reconhecem quem era aquela mulher, mas já não importa mais, pois já é tarde para a moça e para a cidade, tudo estaria perdido em momentos. A espada é levantada para cima e, com um único movimento, a execução chegou a seu fim.

¹Oni é um tipo de demônio oriental.

² Raman é uma pessoa iluminada, o equivalente a um buda.

     ***
Uma pequena garota assistia o evento que acontecia no pátio com fascínio. Seus longos cabelos negros iam até sua cintura e usava um belo quimono de seda acinzentado e brilhante com vários desenhos de peixes e ondas do mar estampados em dourado. Mas o que mais chamava atenção na garotinha era a sobrenatural cor azulada de seus olhos, sinal claro de favorecimento dos kami¹.

Era uma tarde quente de verão, Muzumi via as outras crianças brincarem de bola no pátio de kemari², observava a bola quicar de um lado para o outro, sendo chutada habilmente pelos meninos que fecharam um círculo em volta dela, fazia calor e Muzumi queimava, não por causa do clima, mas pela inveja dos garotos em estarem chutando aquela bola colorida que ela tanto queria para si. Mas a disposição em tomar a bola a havia deixado, pois nas vezes que ela tentou os meninos empurravam-na pela cabeça ou a afastavam tomando pelos braços, mesmo quando ela tentava se aproximar o mais furtivamente que ela conseguia, eles sempre a viam e a empurravam.

Seus intensos olhos cianos observavam o movimento da bola e a habilidade dos garotos em chutá-la, e sua inveja ia gradativamente desaparecendo, dando lugar a um prazer intenso de simplesmente observar aquela bola dançar de pé para pé. A menininha adorava aquele pátio que para ela era tão grande, tão cheio de caminhos e pessoas que sempre eram amáveis com ela.

A concentração da pequena garotinha de três anos pelo jogo dos meninos foi tão intensa, que nem reparou na estranha movimentação que ocorria na cidade pesqueira em que vivia, as pessoas passavam apressadamente, conversando entre si algo a respeito da chegada das andorinhas, os sinos do templo começaram a repicar, mas isso não teria incomodado a menina, se isso não tivesse feito os garotos pararem de jogar e se perguntarem sobre o que estava acontecendo. Finalmente, um homem grande trajando uma armadura cinza e negra abordou obtuso os garotos, pondo fim na partida de kemari.

Muzumi olhou aborrecida para o grande homem de rosto limpo, nariz fino e lábios esticados que agora escoltava os meninos para fora do pátio. Após os garotos terem ido embora, o grande samurai se volta para a menininha:

- Pequena Dama, vá para a casa. Onna-sama³ deve estar preocupada neste momento!

A garotinha assentiu e começa a tomar o caminho para casa, mas quando o grande homem se virou ao ouvir um som em meio a vários, ela correu novamente para a bola e a agarrou satisfeita por ter conseguido seu prêmio. O êxtase dela aumenta quando ouve a mais doce de todas as vozes chamando por ela. A voz faz a Pequena Dama esquecer o grande homem, a bola e os sinos enquanto move seus olhos a procura da dona daquela voz que a chama.

A mulher que a chamava era bela e esguia, trajava um lindo quimono branco com grandes carpas azuis-escuras nadando sobre ele e soltando bolhas pela boca. A mulher gritou o nome da garotinha novamente com um claro tom de alívio quando a viu. A garota abriu um largo sorriso, enquanto atrapalhadamente tentava carregar a pesada bola e ir até a mãe ao mesmo tempo, o grande samurai põe fim ao seu dilema. Ele pega a bola do chão e toma a garotinha pela mão enquanto a conduzia para a mãe.

Higoi Toyonagi se curva em cumprimento respeitoso para a mulher que está a sua frente ternamente olhando para aquela pequena garotinha de olhos azuis. O fato de a garotinha possuir olhos tão exóticos enquanto seus pais possuem olhos escuros passa rapidamente pela cabeça do samurai, tal mistério foi visto como uma benção pela família e ele espera firmemente que essa benção não os tenha abandonado neste dia negro. Sem demonstrar nenhum de seus pensamentos, Toyonagi se dirige para a mulher.

-Mayumi-sama, peço que espere pelo Tono4 dentro de casa, as andorinhas dos Date foram vistas no mar e não demorará para que cheguem aqui.

- Obrigada pela preocupação, primo - disse a bela mulher que atende pelo nome de Higoi Mayumi - e por favor, não se demore mais do que já o fez procurando por minha menina, vá, proteja nossa cidade desses pomposos arrogantes, e tenha certeza de não deixar nenhum deles pisar em terra seca.

O comentário inesperado vindo de um rosto tão terno pegou Toyonagi despreparado e ele esboçou um sorriso com o canto da boca. - Disso você pode ter certeza, prima, mostraremos a andorinha o que significa enfrentar a carpa.

Higoi Mayumi se despede de seu primo enquanto conduz sua filha para casa. Quando já estavam longe, a garota se lembra da bola e dá um último olhar para o grande samurai e depois para a bola.O samurai pega a bola e faz um gesto brincalhão de que vai devolvê-la, fazendo o rosto da criança se iluminar num divertido sorriso. Em casa, Mayumi leva sua garota para dormir, a menina a princípio protesta por ser posta para dormir tão cedo, mas acaba concordando em dormir após sua mãe cantar uma bela canção sobre heroísmo, mitos e magia. Sem perceber a garotinha já dormia, sua mãe dá um terno beijo no peito da garota e se retira silenciosamente do quarto. Na sala da residência, os servos a esperavam ansiosamente, na ausência de seu senhor, aguardam as instruções de sua senhora.

- Fechem os portões e barrem as portas - Mayumi disse autoritariamente - quero os guardas armados e preparados, ninguém deve passar pelos portões que não seja um Higoi ou Kôra. Um Date entrar aqui é inaceitável, fui clara? Antes a morte a isso acontecer!

Os servos olham para sua senhora, ela observa olhares determinados e alguns apreensivos. Olhares inspirados e outros ainda em busca de consolo. Um vento forte faz rodopiar as várias folhas secas que salpicam o chão e são depositadas em poças d’água que se acumulam graças às chuvas de verão.

-O que vai acontecer nesta cidade hoje não justifica desleixo, quero o pátio limpo das folhas e poças d'água, não quero que meu marido entre triunfante apenas para escorregar no chão de sua própria casa! - Os servos se animam e gritam "Hai"5 em uníssono, não há mais dúvidas em seus olhares. Eles agora estão determinados a morrer pela sua senhora e pela pequena dama que tanto amam. O medo do numeroso invasor um pouco disperso pela demonstração de confiança e força de sua senhora. Ainda há esperança em seus corações por uma vitória, mesmo que difícil.

Enquanto a menina dormia, centenas de navios adornados com um par de andorinhas carregando um louro se encalhavam em meio a areia e corpos crivados de flechas da cidade, um milhar de homens trajando armaduras nas cores brancas azuis e salmão se choca contra quase uma centena e meia de defensores trajando as cores cinza, azul-escuro e vermelho. Os defensores são valentes e resistem às primeiras investidas de forma que quase parece possível impedir o inimigo de ultrapassar a costa, mas os números acabam prevalecendo e as andorinhas dos Date voam até o centro da cidade, perseguindo os poucos defensores sobreviventes que se retiram para a mansão fortificada no alto da colina.

Atrás deles há apenas morte e destruição, num mar colorido de cadáveres e moribundos. Um samurai luta para ficar de pé, seu corpo mortalmente ferido, tudo que o mantém vivo é o objeto que ele segura, prometeu sem falar que ia devolvê-lo a uma garotinha. Mas por mais que  tente, ele não pode mais resistir a seus ferimentos. Higoi Toyonagi grita para o céu para que sua pequena dama o perdoe por não ter cumprido a promessa, por ter falhado em defender a cidade de seu senhor, sua família e sua casa e cai. De sua mão, a colorida bola de couro vai quicando no cenário de pesadelos, indiferente aos corpos e a destruição que a cerca.

A garota abre os olhos.


***
¹. Kami é um espírito benéfico ou divino, pode ser também um deus.

². Kemari é um jogo de bola típico do local em que se passa a história. Se faz um círculo entre os participantes e a bola é chutada para cima em direção a outro participante, não se pode deixar a bola cair no chão e só se deve usar os pés.

³. Onna-Sama é uma forma de tratamento, Onna é senhora ou dama, enquanto sama é grande, superior, mestre. Onna-Sama seria algo como "Grande Dama" ou "Minha Senhora".

4. Tono significa algo como senhor ou chefe.

5. Hai significa "sim".

Glossário de Termos:
Boken: Espada de madeira, um boken tem o mesmo peso e balanço de uma espada verdadeira. Um boken é usado para treinamento, mas pode ser mortífero.

Date: Clã de Ryuu Tazai, os Date são um dos clãs mais ricos do império, seu símbolo são duas andorinhas no topo de uma coroa de louros.

Hai: Sim

Hakama: São as calças de Ryuu-Tazai. Hakamas são geralmente bastante largos, não é a toa que são conhecidos como saias divididas. Em Ryuu Tazai Um hakama é comumente preto ou azul marinho, mas pode tomar qualquer cor, inclusive receber estampas. Calças mais justas as pernas são mais usadas no norte de Ryu-Tazai e são chamadas de Kufu. Saias são chamadas de Bakama ou Shagifu.

Higoi: Uma das famílias vassalas do clã Kora.

Juban: Jubans são roupas que são vestidas geralmente por baixo dos kimonos. O juban são bem mais simples que os kimonos e não possuem mangas.

Kabuto: Elmo tradicional do samurai.

Kami: Espírito benéfico ou divino. Também pode ser um deus.

Katana: Espada longa tradicional do samurai.

Kemari: Jogo de bola de Ryuu-Tazai. Se faz um círculo entre os participantes e a bola é chutada para cima em direção a outro participante, não se pode deixar a bola cair no chão e só se deve usar os pés.

Kimono: Vestuário usado em Ryuu Tazai, kimonos possuem vários nomes, dependendo de sua função e ocasião. Mas para simplificar, o nome kimono será usado no lugar de nomes mais específicos. Um típico Kimono se chama “Hitatare” ou robe, o comprimento deles varia da altura da virilha até os pés, e sempre possuem mangas, que podem chegar até os cotovelos, ou até o pulso. Kimonos mais decorativos possuem nomes específicos, podendo ter longas e largas mangas que podem se entender até o chão e possuir belíssimas estampas. Kimonos geralmente são de algodão ou seda.

Kora: Clã de Ryuu Tazai. Os Kora são fortes altos e robustos especializado na destruição de demônios e na defesa do império contra ataques de estrangeiros.

Mon: Símbolo, brasão.

Obi: Faixa amarrada na cintura que serve como cinto, quase sempre possui uma ou mais cordas de cânhamo ou seda para ser melhor sustentação. Em Ryuu Tazai, onde a história se passa, obis podem ser amarrados tanto atrás quanto na frente.

Oni: Demônio

Onna-sama: Algo como “Minha Senhora” ou “Grande Dama”.

O-Yoroi: Armadura completa samurai, literalmente “Grande Armadura”.

Raman: Um espírito abençoado, o equivalente de Ryuu Tazai de um Buda.

Ronin: Em Ryuu Tazai ronin significa “aquele que vaga”, com uma tradução mais literal de “Pessoa-Onda”. Ronins são samurais que, por algum motivo, não possuem senhores.

Sarashi: Faixa de algodão usada com o mesmo propósito de um sutiã.


Toshi: Cidade. Higo no Toshi significa “Cidade dos Higo”.

Parte 2